16 Dias de Ativismo Pelo Fim da Violência
Contra as Mulheres. Um ano de Lei Maria da Penha. A luta continua
pela sua aplicabilidade real
No Brasil, a cada 4 (quatro) minutos uma mulher
é agredida em seu próprio lar, por urna pessoa com
quem mantém uma relação de afeto. Estatísticas
disponíveis e registros nas Delegacias Especializadas de
Crimes contra a Mulher demonstram que 70% dos incidentes acontecem
dentro de casa e que o agressor é o próprio marido
ou companheiro. A Organização Mundial da Saúde
(OMS) reconhece a violência doméstica, de gênero
e familiar como um problema de saúde pública, porque
afeta a integridade física e a saúde mental das
mulheres.
Ampliar o leque de conhecimento sobre esta questão,
com o propósito de chamar atenção da sociedade
é um dos objetivos da 17ª edição da
Campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra
as Mulheres. A Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos
Sexuais e Direitos Reprodutivos está, mais uma vez, integrada
à Campanha que traz, neste ano, o slogan “Exija seus
direitos! Está na Lei, Lei Maria da Penha”.
É uma chamada e um alerta a todas as
mulheres para que saibam da legislação e dos mecanismos
legais para fazer valer os seus direitos e rompam o silêncio
do medo da denúncia e a invisibilidade que marcam a violência.
Desde 2003, a Agende Ações em
Gênero Cidadania e Desenvolvimento, uma Ong feminista, assumiu
a realização e articulação nacional
da Campanha 16 dias no País. Esta Campanha se estende por
135 países e foi criada pelo Center for Women’s Global
Leadership - Centro para a Liderança Global das Mulheres
que estabeleceu o período de 25 de novembro (Dia Internacional
da Não-Violência Contra as Mulheres) a 10 de dezembro
– Dia Internacional dos Direitos Humanos para o desenvolvimento
de suas ações.
Em nosso País, a Campanha começou
em 20 de Novembro - Dia Nacional da Consciência Negra -
com o intuito de pautar, também, a discussão sobre
a violência racial.
Os 16 Dias de Ativismo Pelo Fim da Violência
podem ser vistos como um alerta para a necessidade da implementação
e divulgação da Lei Maria da Penha em todas as cidades
brasileiras, bem como seus reflexos na vida daquelas cuja violência
doméstica causa um grande impacto na saúde e na
vida, de cada uma.
Tão logo inicie, a Campanha indica uma
reflexão sobre a Lei Maria da Penha sancionada há
pouco mais um ano. Embora, careça de aperfeiçoamento
em sua implementação, a Lei repercute no país.
Entre as mudanças promovidas está o aumento no rigor
das punições das agressões contra a mulher,
prisão em flagrante quando ocorridas no âmbito doméstico
e familiar e a criação de um conjunto de mecanismos
que protege a vítima de violência doméstica
e sexual.
Ao associar o binômio mulheres e violências
e o impacto danoso na saúde física e mental das
mulheres, a Rede Feminista de Saúde quer pontuar a real
aplicabilidade da Lei Maria da Penha. E para tanto, a Rede está
integrada ao Observatório criado, em janeiro deste ano,
para acompanhar e monitorar a implantação e aplicação
da Lei e da Convenção Interamericana para Prevenir,
Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher – Convenção
de Belém do Pará, em todo o território nacional,
pois sabe que esse processo é um grande desafio. As ações
do Observatório tem caráter independente e autônomo
e se dirigem a todas as esferas de governo, federal, estadual
e municipal, e aos poderes executivo, legislativo e judiciário.
A Lei Maria da Penha representa um avanço
ao tipificar como crime a violência doméstica, a
violência sexual e agravar as penas para as violências
contra gestantes. E isto é fato. Em Porto Alegre, Rio Grande
do Sul, a violência já apareceu, em 2000, como primeira
causa de morte materna, embora esta informação não
esteja nas estatísticas oficiais. A violência encurta
a vida das mulheres, produzindo danos à sua vida laboral,
comunitária, além de agravos à saúde
sexual, reprodutiva e mental.
A aplicabilidade é um processo, sabemos,
que exige aperfeiçoamento, porque a legislação
específica de combate à violência doméstica
e familiar contra a mulher carece de recursos do Estado e sobretudo
de redes integradas de atendimento para realmente se mostrar eficaz.
Mecanismos como os Juizados Especiais de Violência
Doméstica, delegacias, casa abrigo, serviços de
aborto legal para vítimas de violência, padecem de
resistências por parte dos gestores ainda não sensibilizados.
A capacitação de servidores da área da segurança,
justiça e saúde para compreender as relações
de gênero e a maior vulnerabilidade das mulheres negras,
encurtaria sensivelmente o caminho das mulheres em busca de justiça.
É preciso que, também, se amplie
a divulgação da Lei Maria da Penha. É sabido
que inúmeras e sucessivas campanhas já foram feitas,
mas o direito ao acesso à Lei 11.340/2006 continua, ainda,
ausente na vida cotidiana das mulheres que sofrem o impacto da
violência doméstica e familiar.
A Campanha 16 Dias de Ativismo Pelo fim da Violência
Contra as Mulheres tem a função de disseminar na
sociedade brasileira o conhecimento de que muitas vezes o espaço
doméstico, nos quais as relações afetivas
e acolhedoras devem permear, serve de palco para o medo mesclado
com a dor da violência física. É preciso incentivar
as mulheres agredidas a fazerem denúncias contra seus próprios
familiares e companheiros. Romper esta rede silenciosa da violência
dos crimes de gênero é a grande tarefa de homens
e mulheres que acreditam numa sociedade livre de desigualdades.
* Artigo de Télia Negrão