Justiça para L.
Lícia Peres*

* Socióloga e membro do Conselho Diretor da Themis Artigo publicado na edição de 26/12/07 na Zero Hora – Porto Alegre - Rio Grande do Sul

 

O ano vai chegando ao fim e o pesadelo vivido pela adolescente L., de apenas 15 anos, encarcerada em uma cela com 20 detentos, por 26 dias na cidade de Abaetetuba, no Estado do Pará, onde foi torturada, teve seus cabelos cortados a facão, submetida a violência sexual e despossuída em sua dignidade pessoal, com o pleno conhecimento, ou omissão, das autoridades públicas daquele Estado continuará a nos assombrar até que seja feita justiça.

Trata-se de um caso exemplar a exigir providências efetivas para que não mais se repita.

Com este propósito, as entidades Themis - Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero, o Cladem - Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher, o Instituto Antígona, o Instituto Patrícia Galvão e a Associação pela Reforma Prisional, apoiadas por 53 entidades de âmbito nacional, enviaram ofício para o procurador-geral da Justiça do Pará, Geraldo de Mendonça Rocha, com cópia para as mais importantes autoridades do país. Denuncia, corretamente, que a inconstitucionalidade e a ilegalidade da prisão de L. revelam "a barbárie e a falência absoluta das instituições públicas que, por intermédio de seus agentes, deveriam velar pela proteção dos cidadãos: Polícia Civil, Ministério Público, Defensoria Pública, Poder Judiciário e Poder Executivo, todos envolvidos em um episódio de inconcebível desrespeito à Constituição, ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e aos instrumentos internacionais de proteção aos direitos humanos".

Convém não esquecer que, quando o caso chegou ao conhecimento público, profissionais de Direito e autoridades envolvidas tentaram se livrar da responsabilidade e - o que é mais grave - atribuíram a culpa à adolescente, tachando-a de débil mental, de mentir a idade e insinuar-se para os policiais, numa vergonhosa inversão de papéis, tentando justificar o inominável e transformar a vítima em ré. O machismo e o sexismo do sistema de justiça criminal, lamentavelmente, dizem presente, mais uma vez.

O documento encaminhado denuncia tudo isso e responsabiliza as autoridades paraenses como "penalmente responsáveis pelos crimes de tortura, estupro, e atentado violento ao pudor", porque tinham o dever, sob sua guarda, de ter protegido L. do tratamento desumano e degradante a que foi submetida.

Requer, entre outras medidas, a apuração transparente e rigorosa dos fatos e a responsabilização de todos os envolvidos, com a indenização pelo Estado do Pará a L. e seus familiares por danos morais e materiais sofridos; a investigação de outros possíveis casos de encarceramento de mulheres/adolescentes com detentos neste e em outros Estados e a qualificação dos profissionais do sistema de justiça criminal do Pará nos instrumentos internacionais de proteção aos direitos humanos, em particular, das mulheres e adolescentes.

As mulheres, tradicionalmente, atuam em rede e, de imediato, estenderam sua teia de solidariedade a L.

A sociedade precisa ficar atenta ao caso e pressionar para que seja feita justiça. Desta forma, estará também contribuindo por um fim à violência que se instalou na cultura brasileira.