“...Os agravos do racismo geram outras violências
adicionais, potencializando a opressão da violência
de gênero, tornando, assim, indispensável o recorte
racial nos estudos do fenômeno”.
10 de Dezembro – Dia Internacional dos
Direitos Humanos, assinala o encerramento da 17ª edição
da Campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra
as Mulheres que, no Brasil, iniciou em 20 de novembro –
Dia Nacional da Consciência Negra. A adoção
da data para o início da Campanha é uma construção
dos movimentos sociais negros e de mulheres negras no sentido
de introduzir a compreensão de que o racismo e discriminação
racial são formas de violências que incidem sobre
as mulheres negras e ainda não se encontram suficientemente
reconhecidas nem pelos movimentos sociais e nem pelo conhecimento
acadêmico.
As feministas negras têm trabalhado para ampliar a noção
de violência contra as mulheres, tomando o conceito de violência
racial entre as práticas que produzem dano físico,
psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação,
como já apontou a Doutora em Filosofia da Educação
pela USP, Sueli Carneiro. Os agravos do racismo geram outras violências
adicionais, potencializando a opressão da violência
de gênero, tornando, assim, indispensável o recorte
racial nos estudos do fenômeno.
Sabemos que a violência incide sobre as mulheres e atinge
a todas indiscriminadamente e independente do pertencimento social,
econômico, racial, cultural, de orientação
sexual ou geracional. No entanto, indicadores sociais demonstram
que as negras encontram-se mais vulneráveis à violência
em função da combinação de fatores
sociais, como baixa escolaridade e elevado nível de desemprego
e subemprego.
A forma como se dão as relações raciais
na sociedade brasileira hierarquiza diferenças, gera desigualdades
entre a população negra e a população
branca e determina que as mulheres negras estejam mais expostas
aos efeitos da violência e com menores condições
de acesso a oportunidades que poderiam facilitar o enfrentamento
da situação. Além dos prejuízos para
a vida concreta e material, observa-se um prejuízo para
a subjetividade dessas mulheres que têm a identidade constantemente
atacada e desrespeitada, podendo desencadear um processo de baixa-estima.
O racismo e a discriminação racial, ao contrário
do sexismo, da homofobia, da lesbofobia e de diversos preconceitos
e intolerâncias, ainda não são considerados
relevantes para a produção de impactos negativos
na saúde ou reconhecidos como fatores que contribuem para
a naturalização das práticas discriminatórias
e de violências contra as mulheres negras.
Sobre essas, também, recaem estereótipos instituídos
a partir das relações forjadas no sistema escravista
que perdurou por quase 400 anos no Brasil. Pode-se perceber uma
espécie de entrelaçamento entre violência
de gênero, violência racial e violência sexual
quando se observam práticas socialmente toleradas como
a expropriação dos corpos das mulheres negras utilizadas
como objetos sexuais, por exemplo, no uso de trabalhadoras domésticas
para a iniciação sexual de jovens ou como diversão
de homens mais velhos; nas práticas do turismo e exploração
sexual e no tráfico de mulheres, em que mulheres negras
são alvo preferencial, nos meios de comunicação
onde têm a imagem pejorativamente hipersexualizada, ao mesmo
tempo em que são desvalorizadas, desqualificadas esteticamente
e não enxergadas como desejo de escolhas afetivas.
A relação entre raça/etnia, saúde,
sexualidade e gênero já foi estudada por diferentes
autores e José Carlos Dos Anjos, Doutor em Antropologia
Social, refere que se articulam de modo estreito ao perceber uma
analogia entre a dominação étnica e a dominação
de gênero, pois favorecem a invisibilização
dos grupos dominados e fazem com que as ideologias da sexualidade
estejam carregadas de pressupostos sobre raças.
Com tudo isso é necessário estar alerta para que
as mulheres negras não sejam colocadas em uma posição
de vítimas, que acabaria por desvalorizar a participação
nas diferentes formas de resistência empreendidas para combater
as violências. Assim, é preciso que a formulação
e a execução de políticas públicas
e das ações para o enfrentamento e combate à
violência contra as mulheres considerem não apenas
os fatores que produzem a maior vulnerabilidade das mulheres negras,
mas também as potencialidades, o fortalecimento e o conhecimento
construídos ao longo do tempo sobre esse fenômeno.
Reconhecer e valorizar o conhecimento das mulheres negras e potencializá-lo
afirmativamente, por meio da reflexão e da ação
política é tarefa do ativismo social e da academia.
Nesse contexto, a Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos
Sexuais e Direitos Reprodutivos está comprometida com a
luta anti-racismo e com o combate a violência contra as
mulheres.
Artigo de Maria Luísa Pereira de Oliveira*