Os integrantes da Comissão de Constituição
e Justiça e de Cidadania (CCJ) ficaram divididos, em
audiência pública realizada na última quinta-feira,3,
sobre a descriminalização do aborto prevista no
PL 1135/91. O deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ) defendeu
o parecer do relator, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), contrário
à descriminalização, que momentos antes
tinha sido qualificado de "imprestável" pelo
juiz Roberto Loréa, do Tribunal de Justiça do
Rio Grande do Sul. "O relatório tem base jurídica",
disse Picciani, para, em seguida, lembrar que a Constituição
é clara ao garantir o direito à vida.
Picciani criticou aqueles que tentam valorizar as decisões
do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o assunto e esvaziar
as posições de deputados. "Nesta fase, a
competência é do Congresso Nacional, é a
Constituição que diz isso. Somos os representantes
do povo, portanto cabe a nós legislar", disse. Em
seu parecer, Eduardo Cunha declara que o PL 1135/91 contraria
a Constituição, que assegura a inviolabilidade
do direito à vida.
O deputado José Genoíno (PT-SP), autor do PL
176/95, que tramita em conjunto com o PL 1135/91, disse que
a discussão na CCJ não deveria ser sobre o aborto,
mas sobre como enfrentar a violência contra a mulher.
Para Genoíno, se a tese da criminalização
fosse correta, os países que têm uma legislação
mais liberal não apresentariam estatísticas decrescentes
sobre mortes entre mulheres.
Ele afirmou que, no Brasil, quem tem dinheiro pode realizar
aborto de forma segura, mas as mulheres de baixa renda não
podem. Genoíno também disse que ninguém
de bom senso vai defender a prisão de 1 milhão
de mulheres (estimativa do total de mulheres que cometem aborto
no País, a cada ano).
Influência internacional
O deputado Dr. Talmir (PV-SP), por sua vez, criticou as conferências
mundiais que defendem legislações pró-aborto.
"São posições anti-vida", disse.
Ele afirmou que o Brasil não pode ser influenciado por
entidades internacionais que financiam muitas das pessoas que
vêm ao Congresso Nacional defender o aborto.
Dr. Talmir também citou trechos bíblicos, como
aquele em que João Batista estremece ao saber que Maria
estava grávida de Jesus. "A vida começa no
ventre, está na Bíblia", declarou. Para o
deputado, o aborto não será legalizado no Brasil.
Maria José Rosado-Nunes, da organização
não-governamental (ONG) Católicas pelo Direito
de Decidir, respondeu as acusações de que a entidade
estaria recebendo recursos de entidades internacionais. "Recebemos
sim e nossas contas são abertas. Mas é preciso
dizer que existem grupos anti-aborto que também são
financiados por organismos estrangeiros", destacou.
Já o deputado Eduardo Valverde (PT-RO) disse que o direito
brasileiro considera que o bem maior a ser protegido é
a mulher e, por isso, permite o aborto nos casos de risco de
vida à gestante e de estupro. O deputado afirmou, no
entanto, que não é possível negar a existência
de um mercado de aborto clandestino, "independente da lei
que pune". "Criminalizar, prender a mulher que fez
aborto por falta de assistência pública adequada
seria a melhor solução? Ou melhor seria compreendê-la
e criar condições para que ela decida sobre a
sua vida?", questionou.
Aborto e religião
O juiz Roberto Loréa pediu, no encerramento da audiência,
que os debates contemplem representantes de outros credos religiosos,
e não apenas católicos e evangélicos. "Para
um debate democrático, seria bom ouvir outras pessoas
de outras crenças, uma mãe de santo, um xamã,
adventistas, judeus, e, por que não, ateus." A presidente
do Psol, a ex-senadora Heloísa Helena, lembrou, então,
que dentro das várias crenças existem pessoas
pró e contra o aborto.