O acesso à anticoncepção
atende ao direito das mulheres e reduz o crescimento da população,
tornando mais factíveis políticas de desenvolvimento
e segurança alimentar, afirma nesta entrevista a especialista
Carmen Barroso.
Rio de Janeiro, 11 de julho (Terramérica) - Este ano,
o reconhecimento do direito de as pessoas decidirem quantos
filhos querem ter e quando completa quatro décadas, e
por isso há muito o que comemorar, afirma a brasileira
Carmen Barroso, dirigente da Federação Internacional
de Planejamento Familiar (IPPF). Apesar da onda conservadora
que ameaça a conquista de direitos sexuais e reprodutivos,
nesse 11 de julho, Dia Mundial da População, há
mais progressos do que retrocessos nesta matéria na América
Latina, disse Carmen, diretora para o hemisfério ocidental
da IPPF. O Terramérica conversou por telefone sobre estes
assuntos com Carmen Barroso, doutora em Psicologia Social, pesquisadora
de temas femininos e fundadora de numerosas organizações
não-governamentais em todo o mundo.
Terramérica – O que há para comemorar na
América Latina com relação ao planejamento
familiar nestes 40 anos?
Carmen Barroso – Houve grandes avanços. Em toda
a região foi acolhido o direito humano de decidir sobre
a vida e a sexualidade. As reivindicações de movimentos
sociais foram incorporados a políticas públicas
de muitos governos. As mulheres decidiram ter menos filhos,
efetivando seu direito de decidir. Também diminuiu a
mortalidade e a morbidade materno-infantil. Além disso,
celebramos resultados institucionais. Multiplicaram-se os grupos
de mulheres e as organizações não-governamentais
em geral.
Terramérica – Mas, a atual onda conservadora não
ameaça as conquistas?
Carmen Barroso – Sim, há riscos. O conservadorismo
aprendeu com os movimentos progressistas: decidiu lutar mais
sistematicamente por suas posições. Houve retrocessos
no Chile (rejeição à pílula do dia
seguinte) e na Nicarágua (revogação do
aborto terapêutico). Porém, houve vitórias
no México, onde foi legalizado o aborto na capital, e
na Colômbia, que o autorizou em três circunstâncias.
O anticoncepcional de emergência é aceito e distribuído
na maioria dos paises. Houve mais êxitos do que retrocesso.
Terramérica – Que outros obstáculos enfrenta
o planejamento familiar na região?
Carmen Barroso – As organizações não-governamentais
e os governos enfrentam dificuldades para obter recursos. A
América Latina perdeu prioridade na ajuda internacional.
Também persistem imensas desigualdades, entre as classes
e entre paises. Acabo de voltar do Haiti, onde 200 pessoas se
apertavam em uma clinica da IPPF, o que indica uma forte demanda
reprimida. Há desigualdade também entre adultos
e jovens, estes têm acesso mais difícil aos anticoncepcionais,
o que resulta em gravidez de adolescentes, com o agravamento
de abortos inseguros.
Terramérica – Por que os jovens são prejudicados?
Carmen Barroso – Falta informação. As escolas
são refratárias à educação
sexual integral, que lhes permita se ver como seres sexuais
e tomar decisões adequadas para uma vida sexual segura.
Em agosto haverá uma reunião no México
de ministros de Saúde e de Educação para
discutir essas questões.
Terramérica – Que impacto teve a aids nestes temas?
Carmen Barroso – Foi um sinal de alerta. Os que defendem
os direitos sexuais, o prazer em resposta à repressão
da cultura tradicional, cumpriram um papel positivo, mas esqueceram
os riscos das doenças sexualmente transmissíveis.
A educação sexual que libera exige medidas preventivas.
Outro efeito foi impulsionar os movimentos em defesa dos direitos
sexuais. O governo brasileiro promove o uso de preservativos
em campanhas de televisão, algo pouco provável
se não houvesse a epidemia de aids. Mas as camisinhas
ainda são relativamente pouco usadas. Há muito
que fazer e a publicidade é importante para promover
seu uso. Aponta-se para a necessidade de a mulher poder exigir
o uso de camisinha diante da resistência masculina.
Terramérica – A redução da mortalidade
materna parece uma Meta do Milênio difícil de ser
cumprida.
Carmen Barroso – O alto índice de mortalidade
materna na América Latina é um escândalo
moralmente inaceitável. Sua persistência reflete
o fraco poder feminino para reclamar políticas públicas.
Terramérica – O acesso diferenciado ao planejamento
familiar não alimenta as desigualdades sociais?
Carmen Barroso – Há dificuldades em fornecer serviços
de qualidade e gratuitos a todos, especialmente nas regiões
mais remotas. Por exemplo, no alto Rio Negro (extremo norte
da Amazônia brasileira) vi uma mulher com complicações
de aborto que precisou andar de barco por várias horas
durante a noite em busca de socorro. A solução
é um forte sistema público de saúde. O
IPPF faz o possível, mas é uma organização
não-governamental e presta mais de 18 milhões
de atendimentos anuais na América Latina e no Caribe,
o que é pouco diante das necessidades. A universalização
depende dos governos.
Terramérica – Em matéria de crescimento
da população, a mudança climática
e a crise alimentar não fortalecem teses maltusianas
e de controle de natalidade?
Carmen Barroso – Esse neomaltusianismo exige cuidado.
Esse velho argumento de que a população cresce
mais rápido do que a produção de alimentos
é a explicação mais fácil. Não
é verdade. De fato aumentou o consumo por pessoas que
não consumiam e devemos comemorar a superação
da fome, mas devemos rechaçar tal explicação.
Efetivamente, é mais difícil alimentar uma população
crescente. Os defensores dos direitos sexuais e reprodutivos
também devem cuidar da capacidade de alimentar a todos.
É importante mostrar que a causa principal não
é o crescimento demográfico e que a população
mundial impõe novos desafios para o mundo se o queremos
justo e atendendo às necessidades da humanidade. O aquecimento
global se deve ao consumo dos paises industrializados e à
necessidade de produzir mais alimentos. Isso exige um pensamento
mais complexo, não simplista, para buscar soluções.
Nesse contexto, o acesso à anticoncepção
tem um duplo efeito positivo: atende ao direito das mulheres
que não querem ter mais filhos e reduz o ritmo de crescimento
da população, tornando mais factíveis políticas
de desenvolvimento e de segurança alimentar.