*Jornalista
e cientista política, Secretária Executiva da Rede
Feminista de Saúde, membro do Conselho Diretor da Rede
de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe –
RSMLAC e integrante da Secretaria Executiva do Pacto Nacional
pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal |
Mortalidade materna e violência
contra a mulher são dois dos temas mais abordados
pelo movimento de mulheres na América Latina e
Caribe. Com taxas entre as mais elevadas do mundo, a morte
materna produz, segundo inúmeros estudos, 92 vítimas
para cada 100 mil nascidos vivos no Brasil , constituindo-se
numa injustiça social, um grave problema de saúde
pública e uma violação aos direitos
humanos das mulheres. Já a violência de gênero
contra as mulheres atinge no Brasil uma mulher a cada
15 segundos segundo inúmeros estudos . Em Pernambuco,
nordeste do Brasil, uma mulher é assassinada a
cada dia segundo estudos do Observatório da Violência
do SOS Corpo, o que tem levado a que se estude com maior
profundidade a ocorrência de femicídios também
neste País, a exemplo do que vem ocorrendo no México,
na Guatemala e regiões da Argentina. Mulheres estariam
sendo atacadas e mortas pelo simples fato de serem mulheres,
independentemente de idade, cor, religião e cultura.
Qual a relação entre esses dois fenômenos,
violência e mortalidade materna é um estudo
em aberto não só no Brasil, mas em toda
a América Latina e Caribe. Várias investigações
relacionaram violência e gestação
e violência na gestação, no entanto
sua ligação direta ou indireta como causa
de morte das mulheres no período considerado como
de mortalidade materna continua sem a devida abordagem.
Incluir a violência doméstica como um indicador
de morte materna é um dos objetivos da Rede Nacional
Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos
Reprodutivos do Brasil. A proposta foi apresentada em
dezembro de 2007 à Reunião da Coordenação
do Pacto Nacional para a Redução da Mortalidade
Materna e Neonatal, da qual faz parte, tendo sido indicada
como uma das linhas de investigação a ser
patrocinada pelo Ministério da Saúde. No
momento se desenvolve com áreas do ministério
a discussão sobre a amplitude da pesquisa e a possibilidade
de se estabelecer dois níveis de abordagem, o de
percepção do fenômeno e o de comprovação
empírica do mesmo, através de evidências
científicas.
Para se ter idéia da magnitude do problema, na
cidade de Porto Alegre, região sul do Brasil, com
os mais altos índices de desenvolvimento humano
(IDH) e mais baixos índices de morte materna, no
ano de 2002 o Comitê de Prevenção
e Estudos sobre Mortalidade Materna constatou a ocorrência
de 11 mortes de mulheres por assassinatos, sendo a segunda
maior causa isolada de morte no período. Este dado,
no entanto, não foi incorporado ao Relatório
Anual de Morte Materna do Comitê Municipal porque
esta é considerada uma “causa externa”.
Soma-se aos tantos eventos da vida cotidiana, pública
ou privada, como acidentes, atropelamentos, bem como suicídios,
deixando de ser tratado como fator de risco à vida
sexual e reprodutiva das mulheres.
Compreendendo a mortalidade materna como óbitos
ocorridos no período entre a gestação,
parto e 42 dias pós-parto, e mortes tardias até
um ano após o parto, ocorridas por razões
direta e indiretamente ligadas à gestação,
as doenças não ligadas à gestação
e parto, como problemas cardíacos, câncer
e Aids são consideradas como causas indiretas;
eclampsia, infecções pós-parto, abortos
e hemorragias são consideradas causas diretas.
Essas mortes podem ter como classificação
"evitável" ou "inevitável",
e a subclassificação (opcional) refere-se
à esfera clínica e/ou social Assim, uma
morte pode ser socialmente evitável, mas clinicamente
inevitável e vice-versa. Mortes violentas provocadas
por acidentes, homicídios e suicídios não
integram o conjunto de causas maternas, sendo consideradas
causas externas. Segundo o Estudo da Mortalidade de Mulheres
de 10 a 49 anos, com Ênfase na Mortalidade Materna
(MS, 2007, p. 49) ...”Tais causas corresponderam
a importante parcela dos óbitos de mulheres de
10 a 49 anos no conjunto das capitais brasileiras”,
cerca de 15,5% , variando entre 12,1% a 18,9%, de acordo
com a região analisada, terceiro posto no total
das capitais analisadas e segundo lugar na região
Centro-Oeste. O homicídio surge como principal
causa no grupo, com 39,2%, o que por si só seria
relevante se as pesquisas sobre violência não
indicassem que a absoluta maioria, quase a totalidade
dos assassinatos de mulheres ocorrem no âmbito doméstico
e/ou familiar, promovido por pessoas de relações
de afeto.
VIOLÊNCIA
E GESTAÇÃO
No Brasil vários estudos
já relacionam violência de gênero e
gestação, não incluindo, entretanto,
dados de mortalidade materna. Entre as investigações
realizadas entre 2001 e 2006, destacam-se o estudo Violência
Física Doméstica e Gestação:
resultados de um inquérito no Puerpério,
coordenado por um grupo de pesquisadores numa maternidade
no Recife (Pernambuco), incluindo 420 mulheres. Encontrou-se
prevalência de violência física de
13% antes e durante a gravidez em forma de empurrões,
tapas e manchas roxas, e uma associação
destas violências com fatores de vulnerabilidade,
como baixa escolaridade da mulher, tabagismo e história
de violência familiar anterior. A precária
condição sócio-econômica, falta
de acesso a recursos sociais, família numerosa
e menor cuidado com os filhos esteve presente em quase
todas as histórias mapeadas, e como conseqüência
da violência na gestação um elevado
número de mortes neonatais em função
do deslocamento da placenta. Segundo o estudo, o estresse
continuado durante a gestação predispõe
a esse tipo de patologia e de sofrimento às mulheres.
Os dados relativamente baixos de prevalência de
violência encontrados no estudo, se comparados com
outros trabalhos internacionais, como os de Canterino
(1999) e Purwer (1999) – 36% e 22 a 25% respectivamente
– estariam ligados à metodologia da pesquisa.
O estudo de Pernambuco entrevistou as mulheres no período
puerperal, quando se pressupõe que contemporizem
e relevem as violências por parte dos companheiros
como meio de não perdê-los, mantendo-os como
co-responsáveis pelo filho recém nascido.
“Uma espécie de barganha”, segundo
os autores, que admitem ter obtido resultados abaixo do
real. A situação de pobreza, de baixa escolaridade,
enfim, de desigualdade social, seria fator de banalização
da violência de gênero pelas mulheres.
Outra investigação envolvendo 1123 mulheres
grávidas atendidas pelo Programa de Saúde
da Família (PSF) de um distrito da cidade de Recife
(Pernambuco) pretende analisar as conseqüências
da violência na gravidez e no pós-parto para
a saúde das mulheres. Coordenado pelas médicas
Sandra Valongueiro (integrante da Rede Feminista de Saúde),
Ana Bernarda Ludemir e Thália Barreto, todas vinculadas
à Faculdade de Medicina da Universidade Federal
de Pernambuco, a pesquisa Violência na gravidez
– determinantes e conseqüências para
a saúde reprodutiva, saúde mental e resultados
perinatais, demonstrou que 29% das mulheres sofreram violência
durante a gravidez. Embora durante a gestação
não tenha havido aumento das agressões,
ocorreu mudança na sua forma, diminuindo a violência
física e aumentando a psíquica. Este estudo
ainda está em curso, devendo trazer importantes
subsídios para a discussão que se propõe.
Focando 1922 usuárias entre 15 e 49 anos da cidade
mais populosa do país, o estudo Violência
na gestação entre usuárias de serviços
públicos de saúde de São Paulo –
prevalência e fatores associados - as médicas
Julia Garcia Durand e Lilia Blima Schraiber (Faculdade
de Medicina da USP) partiram de cifras já existentes
de violência de parceiro íntimo de 7,4% a
18,2% na forma física e de 61,7% na violência
psicológica. As autoras chamam a atenção
para os elevados riscos de morrer por homicídio
completo destas mulheres, que segundo estudos feitos por
McFarlane (2002) é três vezes maior entre
as mulheres que sofreram violência na gestação
do que as que sofreram violência em qualquer outro
período da vida. Esta investigação
se baseou em material coletado para conhecer a dimensão
da violência contra as mulheres em geral, sem enfoque
específico, daí porque se tenham encontrado
cifras não tão elevadas, segundo explicam
as próprias autoras. Elas consideram que a taxa
de 32% encontrada no México (Castro e Ruiz, 2004)
entre usuárias de serviços seja a mais próxima
da realidade por ter como objetivo específico a
violência na gestação.
PAUTANDO
NOVAS POLÍTICAS PÚBLICAS
Os três estudos aqui brevemente evidenciados demonstram
que a violência contra as mulheres durante a gestação
e o puerpério, período considerado para as
estatísticas e estudos sobre morte materna constitui
um grave problema de saúde pública. Tendo
entrevistado mulheres na gestação e pós-parto,
por óbvio apenas deram indicativos dos riscos sofridos
por essas mulheres.
Já as estatísticas de mortalidade materna
por violência que se pretende construir darão
a dimensão final do impacto de tais violência
neste período particular da vida das mulheres, forçando
a que se reconsidere os assassinatos de mulheres como indicador
de morte materna. Estes dados também propiciarão
subsídios para a elaboração de novas
políticas públicas de prevenção
da violência de gênero na gestação
e puerpério, a inclusão de novas questões
nas anamneses do pré-natal, bem como a valorização
do direito à anticoncepção de emergência
e do aborto terapêutico, bem como para a ampliação
dos causais do aborto, incluindo-se a vulnerabilidade para
a violência e o risco de morrer.
Esta é uma luta considerada bastante desafiadora
pela Rede Feminista de Saúde, pois implicará
em sensibilizar estudiosos e gestores de políticas
públicas sobre a relação entre violência
de gênero e risco para a saúde sexual e reprodutiva
e alterar para cima os números de morte materna justamente
quando se pretende mostrar que estão caindo. Como
se sabe, o Brasil tem o compromisso de reduzir as mortes
maternas para cumprir as Metas do Milênio, e para
tanto construiu importante estratégia, o Pacto, que
só se viabiliza se houver a adesão de estados
e municípios e o comprometimento da sociedade. A
redução dos números não tem
sido uma tarefa simples, pois implica em desconstruir inúmeros
mitos que envolvem a morte de mulheres nesta etapa da vida,
inclusive sua “missão materna sagrada”.
Ademais, as restrições ao aborto no Brasil,
por si só uma violação de direitos
humanos, mantém uma névoa sobre o tema, na
medida em que sua abordagem concreta implica em reconhecer
os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Assim,
também o aborto clandestino e inseguro impedem a
queda da razão de morte materna, pois em sendo o
planejamento reprodutivo sujeito a falhas, nem sempre acessível
e seguro, em especial para mulheres vivendo em situação
de violência, a ocorrência de abortos se torna
previsível.
Diante das difíceis circunstâncias em que se
trabalha, talvez seja necessário trabalhar com dois
tipos de análise, aquele que se considere a violência
e outro não, o que propiciará, mais uma vez,
uma demonstração cabal do peso deste fenômeno
como fator de saúde, adoecimento e morte das mulheres,
ou seja, a negação dos seus direitos sexuais
e reprodutivos. Ter-se-á, entretanto, a dimensão
real do fenômeno da morte de mulheres, uma reavaliação
da morbidade neste período, o impacto da violência
física e psíquica na gestação
e puerpério. Segundo as pesquisas aqui assinaladas,
a morbidade neonatal é elevada entre essas mulheres,
um sofrimento a mais, uma violência emocional evitável.
Políticas preventivas poderão melhor focar
seus objetivos, aproximando-se mais da vida concreta das
mulheres. |
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| NOTAS:
1-TANAKA, A.C. & MITSUIKI, L. Estudo da magnitude da
mortalidade maternal em 15 cidades brasileiras. São
Paulo, Unicef, 1999
2-A Mulher Brasileira no Mundo Público e Privado,
Fundação Perseu Abramo, 2002
3- Telma Cursino de Menezes, Melania Maria Ramos de Amorim,
Luiz Carlos Santos e Aníbal FaúViolência
Doméstica Durante a Gravidez, C.L. Moraes e ME Reichenhein,
Rio de Janeiro, 2002
4- Violência Doméstica Durante a Gravidez,
C.L. Moraes e ME Reichenhein, Rio de Janeiro, 2002.
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