Abordar a saúde das mulheres negras é considerar os dados
sócios-econômicos, uma vez que no Brasil, 85% da população
feminina afrodescendente está abaixo da linha de pobreza. E,
isto significa que esse grupo está distante da qualidade dos
serviços de saúde, da assistência ao pré-natal
e ao parto, sofrendo o risco de contrair e morrer de determinadas doenças
em número bem superior aos registrados por mulheres brancas.
Os indicadores demonstram que em nosso país, como bem acentuou
Wânia Sant’Anna, pesquisadora e redatora do Dossiê
Assimetrias Raciais no Brasil: alerta para a elaboração
de políticas públicas, editado pela RFS, “a dimensão
racial constitui um desafio à implementação de
políticas públicas dada a distância existente entre
os níveis de bem-estar da população branca e da
afro-descendente em todas as regiões do país “.
Igual pensamento tem Alaerte Leandro Martins, enfermeira, doutora em
Saúde Pública, filiada à Rede Feminista de Saúde
e especialista da temática quando afirma que “a mortalidade
materna ocorre principalmente entre as mulheres de baixa renda e escolaridade,
portanto acomete diretamente as mulheres negras, pois estas moram nas
periferias das grandes cidades e conseqüentemente afastadas dos
serviços e profissionais de qualidade na área da saúde”.
NEGRAS SÃO DISCRIMINADAS -
Ela também salienta que a morte materna é um indicador,
sim, de desigualdade social. E justifica que são raros os casos
de ocorrência de óbitos em mulheres com boa renda e escolaridade.
Alaerte Leandro relembra a morte da gaúcha Marina Carneiro, 25
anos, um caso de mortalidade materna emblemático, “que
evidencia a péssima assistência de determinados serviços
privados demonstrada pela utilização de protocolos próprios
pelos profissionais por desconhecimento ou nenhuma experiência
por parte de recém-formados.
Um outro aspecto por ela destacado são as dificuldades
e limitações na formação de profissionais
das áreas de medicina e enfermagem “nas quais muitos não
aprendem a partejar e sequer analisar exames de rotina como um simples
exame de urina”.
Além disso, Alerte Leandro enfatiza que não se pode perder
de vista o racismo institucional presente de forma arraigada nos serviços
e organizações de saúde que afeta sensivelmente
as mulheres negras, fazendo com que recebam tratamento desigual e, ainda,
mais precário do que as mulheres brancas, limitando o acesso
das primeiras aos serviços, na medida em que são mal-atendidas.
Assim, por conta dessa prática discriminatória, as mulheres
negras têm agravados determinados quadros que poderiam evoluir
favoravelmente.