|
Adson França/Agência
Brasil |
| |
|
Brasília - O Brasil
só poderá reduzir em 75% a mortalidade materna até
2015, como prevê a Organização das Nações
Unidas (ONU) nos Objetivos do Milênio, caso enfrente o problema
em todas as suas dimensões, inclusive as relacionadas ao direito
sexual e reprodutivo. A opinião é de Telia Negrão,
secretária-executiva da Rede Nacional Feminista de Saúde,
Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos.
Segundo ela, houve avanços significativos no país desde
a criação, em 2004, do Pacto
pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal, que
envolve governos e sociedade civil. Entre esses avanços ela citou
a criação de mecanismos para prevenção, como
os Comitês de Mortes Maternas, as políticas de humanização
do parto e a obtenção de dados mais precisos sobre as causas
dos óbitos maternos.
Para a secretária-executiva, no entanto, só haverá
resultados mais significativos quando outros aspectos do problema forem
enfrentados. “Se não for adotada uma política muito
séria de educação sexual, planejamento familiar,
melhoria do atendimento durante a gestação, parto e puerpério
[pós-parto], e de legalização do aborto, não
conseguiremos, reduzir as mortes maternas no Brasil e atingir as Metas
do Milênio. A esse conjunto de medidas se agrega também o
enfrentamento da feminização da aids [aumento da contaminação
de mulheres pelo HIV] da violência contra as mulheres” avaliou.
Adson
França, coordenador de Ações Estratégicas
do Ministério da Saúde e do Pacto, também reconhece
a dificuldade de alcançar a redução da mortalidade
materna nos níveis propostos pela ONU.
“É uma meta muito audaciosa para a maioria absoluta dos países
porque envolve vários fatores: o aumento da escolaridade e do empoderamento
da mulher; a melhoria das condições de saúde, da
atenção ao parto e ao nascimento; a qualificação
de profissionais; a legislação relacionada a complicações
no contexto da violência contra a mulher”.
A redução de 75% prevista pela organização
internacional tem como base a taxa de mortalidade materna nos países
em 1990, que no caso do Brasil era de 64 óbitos a cada 100 mil
nascidos vivos.
Hoje, a taxa no país, levantada a partir de dados de 2005, está
em pouco mais de 53 óbitos. O número é 2,1% maior
do que registrado em 2000 quando as metas da ONU foram lançadas,
mas segundo o coordenador, o aumento reflete a melhoria na notificação
de óbitos maternos que antes estavam subestimados.
Ele aponta, dados positivos que “seguramente” estão
contribuindo para reduzir as mortes maternas, como por exemplo, o a ampliação
da cobertura dos exames pré-natal no país, que passou de
22% das gestantes em 1990, para 76% em 2005.
“Estamos otimistas. Vamos reduzir bastante a mortalidade materna
até o ano de 2015. Estamos buscando isso de forma persistente e
se não chegarmos lá vamos ter a consciência tranqüila
de que estamos no caminho, envolvendo gestores e sociedade civil. Se nós
tivermos recursos financeiros e gestores mais comprometidos podemos sonhar
pelo menos em chegar perto ”afirmou.
França cita a experiência de Fortaleza, onde além
de ser ampliado, o pré-natal passou a ser articulado com o atendimento
durante e depois do parto. Segundo ele, em quatro anos a medida fez cair,
de 70 para 40, o número de óbitos maternos a cada 100 mil
nascidos vivos na capital cearense. “A mulher tem que fazer o pré-natal
e saber onde vai parir. Não pode ficar peregrinando atrás
de um leito", destacou.
O técnico do Ministério salientou, no entanto, que também
é preciso aumentar a qualidade do pré-natal no país,
pois em muitos lugares a consulta não avalia aspectos necessários
para garantir a segurança da gestante e do bebê e nem sempre
consegue oferecer exames importantes. Segundo ele, um resultado de VDRL,
exame que possibilita diagnosticar a sífilis, às vezes demora
até dois meses para ser disponibilizado e das 4500 maternidades
brasileiras só 1200 fazem o exame que detecta o vírus da
aids.
Além disso, França apontou a ainda a necessidade de qualificar
os profissionais que vão atender as mulheres na hora do parto.“Ela
precisa chegar nesse local e ter profissionais qualificados em urgências
e emergências obstétricas e neonatais para dar continuidade
ao processo. Porque se ela faz um bom pré-natal e não tem
profissionais qualificados durante o parto o risco de morrer persiste”.
|