Palestra de Maria Luísa Pereira de Oliveira, Secretária
Adjunta da Rede Feminista de Saúde, em 24 de março
de 2008, com a temática “A construção
de políticas públicas para igualdade de gênero
e raça e HIVAids”, quando da I Reunião
Ministerial de Políticas para as Mulheres e HIV/Aids:
Construindo alianças entre os Países de Língua
Portuguesa para o Acesso Universal, em realização
no Rio de Janeiro
A CONSTRUÇÃO DE
POLÍTICAS PÚBLICAS
PARA IGUALDADE DE GÊNERO E RAÇA E HIV AIDS
A epidemia do HIV Aids é hoje uma questão central
na luta pelos direitos humanos e pelo direito à saúde
das mulheres, indo além das ações no
campo da saúde. A complexidade da disseminação
da síndrome aponta para a necessidade de enfrentamento
de uma série de discriminações que impede
a realização de uma prevenção
efetiva e de uma assistência digna às pessoas
vivendo com HIV Aids e às mulheres de modo mais específico.
O início da epidemia de Aids foi marcado por discursos
carregados de preconceito que produziram a noção
estigmatizante de grupos de risco. Sabe-se, hoje, que o conceito
de vulnerabilidade compreende melhor a intersecção
de múltiplos fatores envolvidos (sociais, econômicos,
político-institucionais, suscetibilidades individuais
e populacionais) quando se pretende analisar a abrangência
da epidemia.
A implementação de políticas públicas,
atualmente, precisa ter o cuidado de não repetir os
equívocos dos conceitos de “grupo de risco”
e “comportamento de risco”, que influenciaram
a construção de programas de prevenção
em determinado momento da propagação dessa síndrome.
Os registros de dados atestam a tendência geral de feminilização
e pauperização da epidemia. Algumas organizações
civis de defesa das mulheres e, principalmente, o movimento
de mulheres negras, têm denunciado a necessidade de
políticas públicas voltadas para mulheres, em
especial para mulheres negras, principal segmento vulnerável
nos dias de hoje. As mulheres negras representam a maioria
da população negra e pobre e constituem-se num
dos principais segmentos excluídos da sociedade brasileira.
Segundo Werneck, 2001, as mulheres negras são atingidas
pela violência estrutural que se baseia no racismo e
no sexismo, fazendo com que a maioria vivencie condições
extremas de pobreza, sem acesso a recursos básicos
como educação, habitação, saúde
e emprego.
A Constituição
Brasileira conceitua saúde como “um direito de
todos e um dever do Estado, garantido políticas sociais
e econômicas que visem à redução
do risco de doenças e outros agravos e ao acesso universal
igualitário para sua promoção, proteção
e recuperação” (Brasil, 1988).
O debate sobre a focalização X universalização
nas políticas públicas emergiu no Brasil com particular
tensão nos últimos tempos; de um lado, uns defendem
as políticas universais enquanto outros, compreendendo
o caráter político, e alinhados aos movimentos
sociais defendem a apropriada necessidade da implementação
de políticas focalizadas e ações afirmativas.
A utilização dos conceitos de gênero e raça,
tomados em sua dimensão política, permite evidenciar
a existência de desigualdades ligadas à distribuição
e acesso desigual a equipamentos sociais como os serviços
de saúde, a educação escolar, a seletividade
do mercado de trabalho, a pobreza, a organização
familiar e às desvantagens geradas por condutas discriminatórias
que ocorrem ao longo da vida das mulheres em geral e das mulheres
negras, em particular.
Ainda um outro particular de tensionamento está colocado
nos princípios da Universalidade e Equidade de nossa
legislação brasileira de vanguarda: O Sistema
Único de Saúde. Alguns autores que estudam o campo
da teoria da justiça (Porto, Giraldes e Rawls, 1995)
colocam a necessidade de incorporar interesses coletivos e específicos
na formulação de políticas públicas
de distribuição, quando o objetivo é a
diminuição das desigualdades, dizendo que é
válida a discriminação positiva, em favor
dos menos favorecidos. Neste sentido, defendemos a adoção
de um critério de eqüidade de acesso aos serviços
de saúde, que se traduza em uma discriminação
positiva de utilização destes serviços,
em que usuárias e usuários de maior necessidade
encontrem o atendimento para suas necessidades.
As políticas de saúde devem se pautar na redução
das desigualdades evitáveis ou injustas, para proporcionar
as mesmas oportunidades de saúde para todas e todos.
Conforme Amartia Sen (2002), a eqüidade em saúde
faz parte de um conceito mais amplo de justiça social
em que a saúde se relaciona com a forma de distribuição
de recursos e, também, com acordos e políticas
sociais que favoreçam os grupos sociais mais vulneráveis.
Uma sociedade que busque a justiça deverá desenvolver
políticas de redistribuição econômica
e deve oferecer mais do que serviços de saúde
aos cidadãos. Deve promover mudanças culturais
que contribuam para obter a garantia dos direitos sociais e
respeito à cidadania.
Compreendemos que o aumento da disseminação do
HIV Aids entre as mulheres é influenciado pela adoção
de políticas públicas universalistas, que não
observam as particularidades de grupos sociais específicos
e de práticas como o sexismo e o racismo institucional
que dispõe as instituições (Estado, escola,
igrejas, empresas, partidos políticos) a serviço
dos pressupostos discriminatórios, limitando, as escolhas,
os direitos, a mobilidade e o acesso de grupos de pessoas a
determinadas posições.
Os movimentos de mulheres, feministas e de mulheres negras vêm
aprofundando a discussão em torno de mecanismos de monitoramento
em âmbito nacional e sobre a construção
de indicadores para avaliação dos impactos das
políticas públicas voltadas para o combate a todas
as formas de discriminação, bem como da incorporação
da perspectiva de gênero e raça na análise
e no desenho dessas políticas.
Sueli Carneiro, Doutora em Educação e diretora
do Geledés - Instituto da Mulher Negra, alerta para a
importância de formuladores e executores de políticas
e ações em saúde considerarem não
apenas os fatores que produzem a maior vulnerabilidade das mulheres
negras, mas também as potencialidades e o fortalecimento
que estão sendo construídas ao longo do tempo
em relação ao tema da saúde. A autora,
resgatando o conhecimento de que, historicamente, os cuidados
com a saúde têm sido uma atribuição
das mulheres, coloca os aportes que as mulheres negras têm
trazido para a sociedade brasileira através da herança
cultural africana. (...) Uma cultura que considera a saúde
não apenas como um estado de ausência de doenças
e, indo mais além da definição de equilíbrio
biopsicossocial da OMS, propõe-se a considerar o equilíbrio
dinâmico, fundado em trocas interativas com as diversas
dimensões da existência.
Assim, compreender os efeitos das práticas discriminatórias
e incluir este tema específico nos estudos e pesquisas
e na elaboração e implementação
de políticas públicas para a saúde das
mulheres em toda sua diversidade, são ações
que ainda se constituem em desafios e precisam ser cumpridas
pelos Estados e sociedades.
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