INFORMATIVO 05 - 09/ABRIL/ 2008

Pronunciamento da Secretária Executiva da Rede Feminista de Saúde, jornalista Telia Negrão no Parlamento Europeu, dia 9 de abril de 2008 – Bruxelas Bélgica


Em nome da Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos (Brazilian Feminist Network for Health, Reproductive and Sexual Rights) agradeço a oportunidade de pronunciar-me neste Parlamento. Somos uma rede composta por quase 300 grupos de mulheres e feministas filiadas, participamos com autonomia de diversas instâncias de controle das políticas públicas como o Conselho Nacional de Saúde, dos Direitos da Mulher e do Pacto para a Redução da Mortalidade Materna e Neonatal. Nossa trajetória nos credenciou a apresentar dados, fatos e o cenário em que se desenvolve a saúde sexual e reprodutiva das mulheres em nosso país.

Farei um breve histórico e demonstrarei o ambiente de fortíssima disputa que se trava com os setores conservadores e fundamentalistas, que trabalham contra os direitos das mulheres e as oportunidades de enfrentamento dos desafios.
O Brasil tem hoje um Governo democrático com iniciativas importantíssimas, porém insuficientes em relação às mulheres; e um movimento de mulheres e feminista decidido a assegurar os direitos e ampliá-los. Mas tem sido muito difícil enfrentar todos os obstáculos.

Um pouco de nossa história recente
• O reconhecimento dos Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos das mulheres brasileiras é um fato recente. Tem seus primórdios nos anos de 1980, no processo de discussão da reforma sanitária e o retorno de feministas que haviam sido exiladas no período de ditadura militar. Até então a saúde das mulheres estava atrelada a uma concepção materno-infantil e políticas demográficas, controlistas de natalidade, particularmente nos anos de 1970 e meados de 1980. Promoveu-se a esterilização de milhões de brasileiras em idade reprodutiva. Uma política focada nas mulheres jovens, pobres, negras, nordestinas de regiões marcadas pela desigualdade. As mesmas que hoje são alvo das redes de exploração e do tráfico sexual porque apresentam biotipos considerados exóticos. A violência contra meninas é com certeza uma das mais graves violações dos direitos sexuais e reprodutivos no Brasil.

A partir de 1984, o Programa de Assistência Integral à Saúde das Mulheres estabelece uma ruptura conceitual com as políticas anteriores. Inclui a promoção, prevenção de riscos e agravos, diagnóstico, tratamento e recuperação a partir das necessidades de saúde identificadas na população. A saúde sexual e reprodutiva ganha novo foco, expressando o patamar obtido pela Organização Mundial de Saúde no período.
Em 1988 a nova Constituição aponta a saúde sexual e reprodutiva entre os direitos fundamentais. Através do trabalho do movimento de mulheres e da bancada feminina na Assembléia Constituinte se evitou a inclusão do direito à vida desde a concepção, paradigma esse que restringe o direito das mulheres de decidir pela realização do aborto.
No Brasil, como é amplamente conhecido, o Código Penal de 1940 criminaliza o aborto, deixando de puni-lo apenas em dois casos: estupro e risco de vida da gestante. Sequer o aborto de fetos anencéfalos é assegurado, cabendo aos médicos e juízes a sua decisão, caso a caso. E o Brasil tem uma das maiores taxas de bebês anencéfalos do mundo, cerca de 600 casos ao ano. No entanto, uma liminar que permitia aborto nestes casos foi cassada em 20 de outubro de 2004 e desde então a ação judicial permanece aguardando apreciação do Supremo Tribunal Federal. Há casos de gestantes de anacéfalos e de fetos com anomalias graves e irreversíveis que aguardam por meses o direito de abortar legalmente.
Tais proibições ao aborto induzem a práticas arriscadas e perigosas e não inibem o aborto, pois segundo os mais recentes estudos realizados (The Alan Guttmacher Institute, IPPF e Ipas - Brasil, com recursos do Ministério da Saúde), o número de abortos no Brasil varia de 1 milhão a 1 milhão e meio de abortos clandestinos ao ano. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 31% das gestações no Brasil acabam em abortos. Esta é a segunda maior causa de internações obstétricas no sistema público de saúde. De segunda a quarta causa de morte materna, dependendo da região. Morrem no Brasil, por ano, cerca de 2 mil mulheres por morte materna. De 13 a 22% por aborto, conforme a faixa etária. É elevada a morbidade por aborto, pois a grande maioria das mulheres os realiza de forma insegura. Mulheres pobres, negras, indígenas, estão entre as vítimas de uma verdadeira tragédia de mulheres mutiladas e doentes. Um problema de saúde pública, uma injustiça social, uma violação aos direitos humanos.
As desigualdades sociais no Brasil podem ser vistas através da saúde sexual e reprodutiva das suas meninas, jovens e mulheres adultas.
Apesar das restrições, desde os anos de 1990, refletindo o papel que o movimento de mulheres jogou na Conferência do Cairo, o Governo Brasileiro iniciou a oferta, por meio do Sistema Único de Saúde, dos serviços de aborto nos casos previstos em lei. Eles se ancoram em Norma Técnica do Ministério da Saúde, se articulam com outras políticas de atenção às mulheres em situação de abortamento, e se espalham no Brasil, onde há cerca 100 cem deles. Um número insuficiente para assegurar o acesso num país continental, com mais de 200 milhões de habitantes e 5.500 municípios.
A anticoncepção de emergência, também prevista em normas nacionais ainda sofre por não ser conhecida e acessível a todas as mulheres e é alvo de investidas dos setores conservadores.

O cenário atual
Desde o ano de 2005, uma a Política Nacional de Direitos Sexuais e Reprodutivos do Ministério da Saúde traduz o conjunto das demandas históricas das mulheres, dando cobertura a partir de uma visão de respeito à diversidade, aos ciclos de vida, à raça e etnia das mulheres, às suas condições e necessidades específicas. Previsto no Sistema Único de Saúde, se expressa por meio de normas e portarias e traduz-se em programas e políticas. Embora de âmbito nacional e tratado como prioridade, não chega ainda a impactar sensivelmente a vida das mulheres, porque a prestação do serviço é em nível local, onde se situam as maiores resistências no reconhecimento dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. E, ademais, está limitado pela legislação restritiva.
As falhas no planejamento familiar ou reprodutivo, o baixo uso da anticoncepção de emergência, a violência doméstica e sexual e o sexo forçado no casamento, leva a elevadas taxas de gestações não desejadas por adolescentes e jovens, se relaciona ao desconhecimento e falta de acesso, e ao abortamento de 31% das gestações segundo a OMS (WHO).

Em 2005, a partir das deliberações da I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, uma Comissão para a Revisão da Legislação Punitiva e Restritiva ao Aborto, composta por setores do Estado e sociedade, elaborou um anteprojeto enviado ao Congresso Nacional. No entanto, não foi votado e sofreu fortes pressões de setores conservadores contra a descriminalização do aborto e sua legalização, em especial da Igreja Católica, que se encontra organizada em frentes parlamentares no Congresso Nacional. Novamente aprovado pelas mulheres na II Conferência, realizada em 2007, o Governo brasileiro já não se dispõe a patrocinar o projeto, diante de tão fortes pressões religiosas. Tais setores têm se mostrado atuantes em várias instâncias do Estado: no Legislativo, no Executivo e no Judiciário, onde está em curso o debate sobre as células tronco para pesquisas, com a intenção de influir e decidir sobre a ciência no Brasil.

A Igreja Católica, desde a visita do Papa Ratzinger em maio de 2007, deflagrou uma ofensiva. Não esconde que integra o projeto da chamada Moratória do Aborto, capitaneada pelo Vaticano. O Brasil seria, segundo analistas, um território-piloto desta estratégia conservadora mundial. A Campanha da Fraternidade, realizada todos os anos no Brasil, desta vez abordou “a defesa da vida”. No mês de março mandou distribuir em paróquias de todo o país réplicas de fetos de 16 semanas, que foram expostos nos altares e filmes com fetos e embriões mutilados, exposições de fotos em locais públicos, sem medir esforços para influir entre seus fiéis, na sociedade em geral e sobre o estado. No Brasil, as pesquisas mostram que a grande maioria dos católicos está distante do que prega a Igreja, daí sua investida pesada, mesmo que seja necessário o uso de métodos considerados “terroristas” pelo movimento de mulheres.
Há hoje cerca de 20 projetos versando sobre DS e DR no Congresso Brasileiro. A maioria contrária aos interesses das mulheres, ameaçando inclusive direitos já assegurados. As matérias favoráveis têm sido relatadas pelos conservadores, que defendem o estatuto do nascituro, ou seja, a vida desde a concepção - e desqualificam os dados e estudos sobre mortes maternas. Há quatro frentes em defesa da vida contra o aborto na Câmara e no Senado. Desde o ano passado realizam-se missas e cultos nas salas do Congresso, afrontando o caráter laico do estado. Listas com nomes de parlamentares favoráveis aos direitos sexuais e reprodutivos são enviadas às paróquias para serem expostos como “aborteiros e assassinos”.
Há, por outro lado, uma escalada contra as clínicas que realizam abortos clandestinos. Mulheres humilhadas e expostas à execração pública em ações policiais cinematográficas levam também médicos e enfermeiros à prisão.

O Ministro da Saúde, defensor da descriminalização do aborto, sofre pressões fortíssimas e ameaças permanentes de setores conservadores. Na última Conferência Nacional de Saúde a Igreja Católica mobilizou-se em todos as regiões, derrotando a tese da descriminalização e da legalização.
Portanto, o cenário no Brasil é de muita ameaça, e tem sido fundamental a aliança do movimento de mulheres com os setores progressistas do Estado, parlamentares, juizes, profissionais de saúde, categorias de trabalhadores e centrais sindicais. Queremos que o Brasil cumpra as recomendações de Acordos e Tratados Internacionais e Planos de Ação de Conferências Internacionais de Cairo, Beijing e a Cedaw, revendo as leis que prevêem medidas punitivas contra as mulheres que tenham se submetido a abortos ilegais e assegurando as políticas públicas de qualidade.
O enfrentamento destas ameaças pelo movimento de mulheres tem sido extremamente difícil. A realidade tem sido cruel também porque não há recursos O agravamento da saúde das mulheres na África Subsaariana e visibilidade dos problemas da Ásia levaram a uma migração de recursos das agências da Nações Unidas e das agências de cooperação. Nos perguntamos: como sustentar teses, campanhas, fazer o enfrentamento no campo das idéias, a defesa do estado laico como pressuposto da democracia, sem dinheiro?

Como estratégia de enfrentamento criamos em 2005 as Jornadas Brasileiras pelo Aborto Legal e Seguro e mantemos a Campanha 28 de Setembro pela Descriminalização do Aborto. Criamos a Associação de Familiares e Amigos de Vítimas de Morte Materna para canalizar a indignação e exigir a responsabilização. Realizamos ações públicas, seminários, passeatas, caminhadas, denúncias aos meios de comunicação. Elaboramos estudos e pesquisas e temos parcerias com instituições universitárias e profissionais de saúde. Elaboramos relatórios às Nações Unidas e pressionamos para que as recomendações do Comitê Cedaw sejam cumpridas. Elaboramos projetos conjuntos com parlamentares e auxiliamos na sua defesa. Atuamos na educação em saúde com as mulheres, oferecemos serviços de aconselhamento e orientação e monitoramos o funcionamento dos serviços de aborto legal. Mas nossas ações são acompanhadas de perto pelos Pró-Vida, que utilizam-se da legislação vigente para nos ameaçar de incitação ao crime, como fizeram em relação ao projeto de Redução de Danos implementado pela Unicamp e Bemfam, sob a coordenação do doutor Aníbal Faúndes.

A mortalidade materna por aborto segue sendo um campo de disputa da verdade. De um lado está o Vaticano e seus aliados para quem não falta financiamento. De outro, o movimento de mulheres, poderoso nas suas intenções, vigoroso nas suas ações públicas, mas sem possibilidade de contestar à altura os velhos padrões culturais de uma sociedade dominada pela fé católica e outras igualmente conservadoras.
É uma luta desigual, alimentada pelo desejo e pela consciência de que o Brasil não pode retroceder, que tem um papel estratégico na região. É fundamental para garantir os avanços obtidos na Colômbia, no México, no Uruguai, na Argentina e tantos outros países. É essencial para assegurar às mulheres o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos numa perspectiva de direitos humanos.
O que se espera deste relato e denúncias é que possam mexer na consciência da sociedade mundial, obtendo-se o apoio e a solidariedade tão necessária para derrotar adversários da vida das mulheres.

Agradeço, em nome da Rede Feminista de Saúde do Brasil, mais uma vez, esta oportunidade que nos foi facilitada por IPPF, e espero que as minhas palavras possam ecoar em seus corações e mentes.