Ano 1 - nº 01 - Novembro de 2007- Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil

ALIANÇA REGIONAL
Na Bolívia, reunião ampliada define novas estratégias

DESTAQUES

- Rede Feminista de Saúde é ponto focal brasileiro
da Campanha


- Manifesto incentiva a democracia da sexualidade

- Publicação é uma carta política em prol da Convenção Interamericana dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos

- Entrevista com Regina Soares

- Opiniões sobre a Campanha

Foi realizada de 7 a 9 de novembro, em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia, mais uma reunião da Campanha pela Convenção Interamericana pelos Direitos Sexuais e Reprodutivos que teve a participação de representantes das organizações que compõem a Aliança Regional pela Campanha e integrantes de alianças nacionais, de diferentes países. A Rede Feminista de Saúde assinou presença com a psicóloga e mestra em saúde coletiva, Maria Luísa Pereira de Oliveira, Secretária Adjunta da Entidade. Além de integrar a Aliança Regional que construiu a Campanha, a Entidade é responsável por impulsioná-la no Brasil.

 

Maria Luísa Pereira de Oliveira, Coordenadora do Ponto Focal Brasileiro da Campanha e Secretária Adjunta da Rede Feminista de Saúde

Roxana Vasquez, do CLADEM, Peru, e coordenadora da Campanha pela Convenção Interamericana pelos Direitos
Sexuais e Reprodutivos

O ponto alto da reunião foi a eleição da nova integrante da coordenação colegiada. A atual coordenadora Roxana Vasquez, do CLADEM/ Peru, conduziu o processo da Campanha desde o início com destacada atuação. Desde 2006 passou a partilhar a função com Cecília Olea, de Flora Tristán, do Peru e Regina Soares, de Católicas pelo Direito de Decidir, do Brasil.

Roxana Vasquez será substituida, em breve, por Deysi Roque, da Campanha pela Convenção em El Salvador. A coordenadora eleita integra a organização Flor de Piedra, que trabalha pelo empoderamento e organização das trabalhadoras do sexo e promove ações nas áreas de educação sexual e reprodutiva, prevenção de HIV/Aids e elaboração de alternativas de trabalho.

Nos próximos dois anos, Deysi Roque integrará a Coordenação da Campanha juntamente com Cecília Olea e Regina Soares. Para Maria Luísa Pereira de Oliveira a eleição da nova coordenadora, “manifesta a valorização das alianças nacionais e a ampliação do diálogo com outros movimentos sociais e segmentos da sociedade”.

Ruth Peñafiel, do Equador, Gina Vargas, do Perú, e Marcelo Ferreyra, da Argentina, painelistas da sessão de abertura

ASSEMBLÉIA GERAL - O evento foi aberto com um painel sobre a conjuntura latino-americana em relação aos direitos sexuais e reprodutivos, avanços e retrocessos em suas diferentes perspectivas. A temática foi apresentado por: Gina Vargas, do Peru, que falou a partir do olhar feminista; Marcelo Ferreyra, da Argentina, que trouxe as considerações dos movimentos LGBTT e Ruth Peñafiel, do Equador, que tratou do assunto a partir do entendimento dos movimentos indígenas.

Os objetivos dessa reunião foram diminuir as distâncias entre as alianças nacionais e regionais, discutir estratégias de ampliação, avançar na análise da campanha e do trabalho que a mesma exige e eleger a substituta de Roxana Vasquez. Um outro aspecto importantes do encontro foi a deliberação de que a próxima eleição será desenvolvida através de uma assembléia geral constituída pelas alianças nacionais e regionais. Além disso, foi discutida a elaboração de um documento que sirva de texto base a ser trabalhado com vistas à aproximação de organismos internacionais para materializar a proposta de uma Convenção Interamericana.

REPRESENTAÇÃO BRASILEIRA - A participação do Brasil, além da Secretária Adjunta da Rede Feminista de Saúde, contou com Regina Soares, Socióloga, Teóloga e Doutora em Ciências da Religião pela PUC de São Paulo, Coordenadora Executiva de Católicas Pelo Direito de Decidir do Brasil, componente da Coordenação da Rede Latino-Americana de Católicas pelo Direito de Decidir e integrante da Coordenação da Campanha Pela Convenção dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos.

Regina Soares, uma das coordenadoras da Campanha . Na foto à direita, Karen Queiroz, da Coturno de Vênus, de Brasilia

Uma outra representante foi Karen Lúcia Borges Queiroz, 24 anos, diretora da área de saúde da Associação Lésbica Feminista de Brasília - Coturno de Vênus. A instituição é uma das filiadas da Rede Feminista de Saúde e trabalha pela cidadania das mulheres, especialmente as lésbicas e as bissexuais, e pela igualdade de gênero. Fundada no pensamento feminista, a Coturno de Vênus participa ativamente do movimento nacional de mulheres, do movimento nacional LGBTTT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros), do movimento nacional de lésbicas, e do movimento nacional de Direitos Humanos.

A Associação trabalha para a defesa e promoção dos direitos humanos com enfoque nas questões de orientação sexual, gênero e raça/etnia, desenvolvendo ações públicas, voltadas às mulheres moradoras das cidades satélites do Distrito Federal.

A participação da Coturno de Vênus, na reunião de Santa Cruz de La Sierra, ocorreu pelo convite da Rede Feminista de Saúde que busca .acessar um maior número de mulheres jovens e lésbicas. A entidade passa, assim, a integrar a aliança nacional da Campanha. A Associação, estrategicamente localizada na sede do governo federal brasileiro, oportuniza a articulação de ações junto ao governo para exigir o respeito à laicidade do Estado e lutar contra os fundamentalismos.

Da esquerda para a direita, Judith Escobar, da Colômbia, Nirvana Gonzalez, da RESMLAC e Patrícia Orozco, da Campanha 28 de Setembro, durante a reunião em Santa Cruz
SAIBA MAIS - A proposta da Convenção nasce de uma aliança de organizações, redes e campanhas feministas da América latina e do Caribe. Integram a Aliança Regional pela Campanha o Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher - CLADEM; Red Latinoamericana de Católicas por el Derecho a Decidir; CIDEM; Campana 28 de Septiembre; Comisión Internacional de Derechos Humanos para Gays y Lesbianas - Programa para América Latina; Cotidiano Mujer; Flora Tristán; Red de Salud de las Mujeres Latinoamericanas y del Caribe; Rede Feminista de Saúde; Red Latinoamericana y Caribeña de Jóvenes por los Derechos Sexuales y los Derechos Reproductivos; REPEM-DAWN; Sos Corpo.
Manifesto incentiva a democracia da sexualidade
A Campanha pela realização de uma Convenção Interamericana dos Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos começou a se fortalecer no País, em setembro passado, com o lançamento nacional, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, do Manifesto da Campanha - segunda versão em língua portuguesa (feita para suscitar o debate).

O evento foi uma promoção da Rede Feminista de Saúde - Ponto Focal da Campanha - e o lançamento ocorreu na Casa de Cultura Mário Quintana. Na ocasião esteve presente, como conferencista, a socióloga e teóloga Regina Soares Jurkewicz, coordenadora da Red Latinoamericana de Católicas Por El Derecho a Decidir, entidade que assumiu a produção editorial desta versão em português do Manifesto.
O lançamento deste documento favoreceu a abertura de um diálogo com representações do movimento social, de mulheres e feministas que se apresentaram para intercambiar e intensificar relações de apoio à Campanha, como Tina Rovira -Rede Brasileira de Prostitutas, Simone Cruz – AMNB – Articulação de ONGs de Mulheres Negras Brasileiras, Alexandre Böer – ABGLT – Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais
e Silvana Conti – LBL – Liga Brasileira de Lésbicas
DEMOCRACIA RADICAL - Com 40 páginas e edição primorosa, o Manifesto por uma Convenção Interamericana dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos dá o norte para que se busque uma sociedade em que prevaleça “a democracia radical que reivindique a interrupção da ordem natural de dominação e institua o reconhecimento social das pessoas desprovidas de direitos”. Regina Soares, em sua conferência, esclareceu: “- o que nós estamos querendo dizer é que não basta a democracia representativa, formal. Nós queremos a democracia atravessando todas as relações sociais e, também, a sexualidade”.

Prosseguindo, a teóloga afirmou que o ponto central da publicação “é o cruzamento
da democracia com a sexualidade”. Normalmente, afirma, pensamos em democracia quando falamos em processo político ou social, ou seja o estado democrático.
O Manifesto, segundo Regina Soares, vai além, pois aborda a democracia na vida individual e na sexualidade, sem se descolar dos processos mais amplos.

O documento chama atenção para não discriminação daqueles que se manifestam sexualmente de forma diferente das normas heterossexuais. E nisto, a redação dos textos avança ao acentuar que para garantir direitos iguais é necessário cuidar e respeitar as diferenças, sem hierarquizá-las. E neste sentido, Regina Soares, destaca que “o sexismo e a homofobia são uma grande ameaça à democracia em sua totalidade e não somente afetam mulheres e homens”.

Publicação é uma carta política em prol da Convenção
Interamericana de Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos
“Um texto apaixonante que articula o pensamento, sentimentos e propostas de direitos individuais e direitos sociais”. Este foi o comentário de Regina Soares, quando de sua conferência, em Porto Alegre, ao referir-se ao conteúdo da segunda versão do Manifesto da Campanha pela Convenção dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos. A publicação em sua primeira versão, em idioma espanhol,
foi divulgada em 2002.
 
Após um processo de debates, consultas e reflexões, obteve-se uma segunda versão mais completa, que segundo as autoras se constitui numa “carta política e é, ao mesmo tempo, uma proposta que contribui para assentar as bases
de uma futura convenção interamericana em matéria de direitos sexuais e de direitos reprodutivos. Já o Manifesto traduzido para o português foi finalizado em novembro de 2006,
se concretizou com o apoio da Fundação Ford, Hivos e dos Ministério Danés de Relações Exteriores.

Em seu conjunto de textos, o Manifesto apresenta em suas páginas iniciais que os “direitos sexuais e os direitos reprodutivos são direitos humanos. São universais, porque abarcam todos os seres humanos desde seu nascimento; são interdependentes porque se conectam com todos os demais direitos humanos. E são individuais porque são vividos e atuam de um modo conjunto e integral”. Destacando ainda que “ao relacionar sexualidade e democracia abre-se uma nova perspectiva de radicalização na construção de uma sociedade mais justa e igualitária”.

O documento defende a laicidade dos Estados, por considerar que a separação entre as Igrejas e o Estado é a única forma aceitável de governo em sociedades democráticas. “Por isso, os Estados devem adotar uma postura neutral diante dos diversos dogmas de fé”. Postula que as mulheres devem recuperar o direito de decidir autonomamente o controle da sua capacidade reprodutiva, firmando-se como seres sexuais e como cidadãs.

E alinha, também, os direitos reprodutivos dos homens e sua responsabilidade compartilhada, afirmando que a reprodução é um direito e um prazer quando decidida livremente, longe do constrangimento das influências religiosas, morais e por limitações econômicas.

Aborda ainda: a não aceitação da mercantilização das condições de produção da vida, chama atenção para a democratização das condições de produção científica e tecnológica no campo da sexualidade e da reprodução, faz o reconhecimento e celebra a diversidade de expressões de gênero existentes e requer a construção de uma ética pública emancipadora que substitua a “moral pública existente”.

OPINIÕES SOBRE A CAMPANHA
“...Ressaltamos a importância desta campanha por uma Convenção Interamericana dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos e afirmamos que somos parceiras nesta ação. Outras representantes de nossa articulação têm participado de reuniões já realizadas no Rio de Janeiro e São Paulo. Nossa parceria se dá considerando todos os agravos que atingem diferentemente as mulheres negras, levando em consideração a precária situação relacionada à desigualdade de acesso aos serviços de saúde”. Simone Cruz, Articulação de ONGs de Mulheres Negras Brasileiras -– AMNB
“... Costumamos dizer que temos direitos, mas nunca eles são respeitados. E para isto acontecer, precisamos trabalhar, lutar para conquistar aquilo que é nosso por direito. Penso que direito sexual e direito reprodutivo é um tema que precisamos trabalhar com a nossa população. Como representante, aqui em Porto Alegre, da Rede Brasileira de Prostitutas, digo que a nossa maior luta é que as prostitutas,as profissionais do sexo tenham o direito de exercer a sua atividade, a sua profissão com dignidade e com respeito. Portanto, falar do direito à sexualidade das pessoas é colocar em pauta, ou na roda de discussão de nosso movimento, de nossa instituição este assunto de fundamental importância, bem como dar visibilidade. Estamos com muita vontade de nos envolver e de levar a todos os movimentos de mulheres com os quais nos envolvemos esta proposta de uma convenção pelos direitos sexuais e direitos reprodutivos”. Tina Rovira, Rede Brasileira de Prostitutas e Coordenadora do Núcleo de Prostituição - NEP
”...A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais trabalha o tempo inteiro com as questões dos direitos sexuais e direitos reprodutivos, sob o ponto de vista mais afirmativo. Estamos buscando ampliar as parcerias com o movimento feminista e das mulheres porque acreditamos que as raízes da opressão são as mesmas, ou seja o machismo, que faz com sejamos discriminados e soframos todo tipo de violência em nosso cotidiano. Por isso, é fundamental avançar nestas parcerias para que possamos lutar por um estado democrático e de direito que não discrimine, que não violente as pessoas em função de sua orientação sexual, ou de sua identidade de gênero ou por amarem pessoas do mesmo sexo”. Alexandre Böer – ABGLT – Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais.
“...Quando estamos falando da construção de uma convenção dos direitos sexuais e reprodutivos em âmbito internacional, interamericano, nós de certa forma estamos trabalhando um sonho e na possibilidade da humanidade ser mais feliz em sua sexualidade. Quando a Rede Feminista assumiu o ponto focal da campanha, nós sabíamos que seria um enorme desafio, principalmente porque vamos trabalhar com temas que mexem profundamente com corações e mentes, desloca espaços e poderes e que nem sempre é tornado uma agenda prioritária para os movimentos”. Telia Negrão, jornalista e Secretária Executiva da Rede Feminista de Saúde.
Rede Feminista de Saúde
é ponto focal brasileiro

da Campanha
A Rede Feminista de Saúde é uma articulação do movimento feminista brasileiro e integra a Aliança Regional da Campanha pela Convenção Interamericana dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos. Sua participação neste processo tem início quando se intensificam as discussões com o propósito de defender e promover os direitos humanos, sexuais e reprodutivos na América Latina e Caribe.

Mas, foi durante o X Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe realizado, no mês de outubro de 2005, em Serra Negra, São Paulo, Brasil, que a Rede assume o compromisso de se colocar como Ponto Focal da Campanha. No ano seguinte, ao participar da reunião da Aliança Regional realizada em Lima, Peru, a Entidade reafirma sua posição quanto à implementação da Campanha no país.

Detentora de uma expressiva representatividade que a permite acessar importantes e fundamentais segmentos do movimento feministas e de mulheres, a Rede quer desempenhar um papel atuante no processo de ampliação da Campanha em todos os Estados. Para isto já está fazendo um chamamento para que todas as mulheres assumam os seus direitos de ter o controle e a capacidade de decidir livre e responsavelmente sobre temas relacionados com sua sexualidade e saúde sexual e reprodutiva, sem coerção, sem discriminação e sem violência.

Ao assumir o compromisso de se colocar como Ponto Focal Brasileiro da Campanha, a Rede Feminista de Saúde busca viabilizar a sua implementação em todo o país, porque considera como questões fundamentais o exercício da saúde, dos direitos sexuais, dos direitos reprodutivos, como direitos humanos. E, também, porque visa estimular o debate sobre as questões da sexualidade e da reprodução sob o ponto de vista da democracia da sexualidade atentando para as resoluções das conferências internacionais - Cairo/1994 e Beijin/1995 -, das quais o Brasil é signatário.

AÇÕES FUNDAMENTAIS - A Campanha pela Convenção Interamericana se constitui em uma das ações fundamentais para contemplar os princípios da Rede. Atualmente, a Campanha conta com o apoio financeiro do Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher -CLADEM. A Rede Feminista de Saúde entende que estabelecer esta agenda pela Convenção dos Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos é tema de interesse de diversos movimentos sociais, de mulheres, de feministas, de lésbicas e gays e do conjunto da sociedade.

A Coordenadora do Ponto Focal Brasileiro, Maria Luísa Pereira de Oliveira, Secretária Adjunta da Rede, salienta que o “direito à saúde sexual e reprodutiva deve ser entendido como “Direito Humano, ou seja, é um direito de mulheres e homens de serem informadas e informados e terem acesso aos métodos contraceptivos eficientes e seguros, de ter uma vida sexual satisfatória, com livre orientação e expressão sexual e, com autonomia e liberdade de decidir quanto à reprodução”.

Algumas integrantes da Rede colaboraram na elaboração da segunda versão do Manifesto por uma Convenção Interamericana dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos, publicação que se constitui numa proposta para referenciar as bases dessa futura convenção. A atual Secretária Executiva da Entidade Telia Negrão, na referida publicação, aporta uma contribuição sobre os corpos ciberculturais e o quanto isto afeta no exercício do prazer, da maternidade e na questão da infertilidade.

MUDANÇA DE SEDE - A Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos está no Rio Grande do Sul - Porto Alegre - desde janeiro de 2006. A presença da Entidade em terra gaúcha, saindo de Belo Horizonte (MG), é resultado do processo eleitoral que aclamou como chapa vencedora a que reuniu a jornalista Telia Negrão, do COLETIVO Feminino Plural, e a psicóloga Maria Luísa Pereira de Oliveira, de MARIA MULHER - Organização de Mulheres Negras.

Integram a Rede cerca de 260 filiadas entre grupos de mulheres, organizações não-governamentais, núcleos de pesquisa, organizações sindicais, profissionais de saúde, ativistas do movimento feminista.

A Rede faz a defesa dos direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos, de uma política de atenção integral à saúde da mulher, com ênfase na melhoria da atenção obstétrica e pré-natal, no planejamento reprodutivo, em especial ao aborto realizado em condições inseguras, hoje da ordem de 1 milhão ao ano no Brasil, e ao combate à violência doméstica e sexual.

ENTREVISTA
Regina Soares: “é possível ter um discurso religioso que não seja condenatório da vivência sexual”

O nome de Regina Soares Jurkewicz é uma referência no movimento feminista, principalmente pelas posições assumidas contra a postura conservadora da Igreja Católica. Em sua palestra, quando do lançamento do Manifesto em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, tocou em temas como religião, aborto, democracia, diversidade e globalização. Sobre religião pondera “é possível ter um discurso religioso que não seja condenatório da vivência sexual”.
Afirma, ainda, que“pensar a sexualidade democraticamente tem a ver com a possibilidade de que as pessoas homossexuais, bissexuais, transexuais, travestis precisam ter os mesmos direitos garantidos para uma vivência sexual democrática”. Em entrevista com a nossa redação Regina Soares expôs algumas idéias.

P – Quem é Regina Soares?
R – Bom .. eu sou uma mulher de 52 anos que faz parte do movimento feminista já há alguns anos vinculada desde o início ao grupo de católicas pelo direito de decidir no Brasil e isto aconteceu em 1993, que a gente anunciou a presença pública de católicas aqui e que tem há vários anos trabalhado em dimensão latino-americana, mesmo antes de ser parte de católicas eu venho de uma participação do tempo da Teologia da Libertação, na igreja brasileira, no centro de formação ecumênica, de formação popular. Desenvolvi uma pesquisa sobre abuso sexual cometido por padres contra mulheres, terminei isto o ano passado. Sou casada, tenho dois filhos adolescentes.
P – Por quê Católicas pelo Direito de Decidir?
R - Porque defendemos a possibilidade de que as mulheres possam continuar mantendo a sua perspectiva de fé e lutando por seus direitos enquanto feministas, ou seja, o que nós defendemos é que a religião pode ser compreendida positivamente no campo da sexualidade, muitas vezes o pensamento oficial da igreja tem vinculado a idéia do sexo ao pecado, e isto gera posições condenatórias em tudo a que se refere a sexualidade que não segue o padrão da norma heterossexual. Estudando a história da igreja e recolhendo o pensamento dos teólogos em diferentes partes do mundo é possível encontrar argumentos teológicos que nos ajudem a tomar decisões éticas, positivas em relação aos direitos reprodutivos.
P – Por essa sua posição deve estar sofrendo algumas repressões. Como a senhora lida com isso?
R – Católicas pelo Direito de Decidir têm, na verdade, conseguido bastante adesão, simpatia, também de setores organicamente vinculados à Igreja. Existem religiosas que se somam, existem padres que apóiam a organização. Alguns de maneira mais explicita, outros não.Há um desgaste muito grande desse pensamento católico que nega o uso, por exemplo, da camisinha, a possibilidade das mulheres decidirem sobre o seu corpo, a entender que os homossexuais têm a mesma dignidade que os heterossexuais têm, e que esta prática tem o mesmo valor moral. Realizamos algumas pesquisas que mostram que 95% da população católica pensa que é legítimo usar camisinha e que nem por isso deixam de ser bons católicos. Antes da repressão o que observamos é uma profunda adesão, mais ou menos explicita, dependendo dos vínculos e da coragem das pessoas que aderem.
P – E qual seria o papel da Igreja?
R – Nós vivemos num país democrático, então todas as pessoas e instituições têm direito de expressar sua opinião. Só que este direito de expressão não pode ser em detrimento da elaboração de leis que vão sendo feitas para toda a população, para todos os cidadãos e cidadãs brasileiras. Não tem o direito de colocar os seus princípios doutrinários como uma imposição a toda a população, quando se trata das questões relacionadas ao aborto ou a homossexualidade, ao processo de parceria civil. Aborto no Brasil é uma questão de saúde pública, então tem que ser tratado como um problema de saúde pública e não como um problema de ordem religiosa. Nós vivemos num estado laico, a separação entre Igreja e Estado já aconteceu há 100 anos em termos de lei, mas na verdade, o que observamos é que ainda no Congresso Nacional, freqüentemente há um lobby dos setores conservadores religiosos tanto da igreja católica, como de igrejas evangélicas, quando se tratam questões relativas à sexualidade.
O Ponto Focal Brasileiro tem sido parceiro em algumas ações com temas relacionados aos direitos sexuais e reprodutivos e, recentemente, apoiou a realização da Parada do Orgulho GLBT - Porto Alegre 2007

As fotografias da reunião em Santa Cruz de la Sierra são de Karen Queiróz.
As fotografias do lançamento do Manifesto em Porto Alegre são de Mathias Cramer.

Visite também
Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos – Ponto Focal Brasileiro da Campanha pela Convenção Interamericana dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos
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