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Rede
Feminista de Saúde encaminha carta ao Ministro da Justiça,
Tarso Genro
Organização exige providências para
o caso da adolescente que passou a noite no presídio
de Charqueadas, Rio Grande do Sul
A Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais
e Direitos Reprodutivos, uma articulação do movimento
de mulheres e feministas, com sede em Porto Alegre/RS encaminhou
em 17/01, uma carta ao Ministro da Justiça, Tarso Genro,
com cópia à Ministra Nilcéia Freire, da
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres e ao
Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, na qual exige providências
para o caso da adolescente que dormiu na Colônia Penal
de Charqueadas (55 km de Porto Alegre, Rio Grande do Sul) junto
com dois presos, com a conivência da administração
do presídio
.
No documento, a Organização relembra o caso de
Abaetetuba, Pará, dizendo que tanto o caso da menina
paraense, quanto este ocorrido na última terça-feira,
15, em solo gaúcho, revelam “ revelam o grau de
vulnerabilidade de jovens mulheres quando as políticas
públicas não as alcançam. Justamente por
serem jovens e mulheres, num país de tradições
culturais conservadoras em relação ao sexo feminino,
são transformadas em presas fáceis das redes paralelas
ao Estado, e nestes dois casos, do próprio Estado”.
BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA - A Secretária
Executiva da Rede, jornalista Telia Negrão, afirma que
banalização da violência, em especial da
violência sexual contra mulheres e jovens, exige que as
normativas internacionais e nacionais sejam implementadas e
seguidas em nosso País. Mesmo reconhecendo o esforço
que o Estado brasileiro vem fazendo em direção
à democratização, a Rede Feminista de Saúde
frente aos recentes fatos envolvendo jovens mulheres - Abaetetuba
e Charqueadas - exige a total, completa e transparente apuração
dois casos.
Além disso, a Organização recomenda a oferta
de meios de defesa, acesso à atenção para
tratamento quanto à saúde física e psíquica
das duas adolescentes, e em particular, de sua saúde
sexual e reprodutiva. E, ainda, a mobilização
de recursos para que as mesmas possam ser fortalecidas no seu
convívio social através de um conjunto de políticas
públicas intersetoriais que cabe ao Estado fornecer.
INTEGRA DA CARTA
ENVIADA AO MINISTRO
Porto
Alegre, 17 de janeiro de 2007.
Excelentíssimo Senhor
Tarso Genro
DD Ministro da Justiça
Brasília – DF
C/C SPM/ CNDM
Senhor Ministro,
A Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos Sexuais
e Direitos Reprodutivos, com sede em Porto Alegre (RS),
entidade que congrega mais de duas centenas de organizações
e pessoas filiadas em torno da defesa das mulheres e integrante
da Rede de Saúde das Mulheres Latinoamericanas e
do Caribe, vem a Vossa Excelência expressar profunda
indignação com os fatos recentes que agridem
e violam os direitos humanos de mulheres, em especial de
mulheres jovens em nosso País.
Há cerca de um mês, o Brasil
se tornou manchete internacional com as denúncias
da permanência da menina de 15 anos com homens em
uma cela durante 26 dias em Abaetetuba (PA), sendo seguidamente
estuprada, torturada com queimaduras e submetida à
fome, caso esse que motiva investigações nos
diversos níveis.
Agora, nesta última terça-feira, 15 de janeiro,
novamente, veio à tona a denúncia de que uma
adolescente de 14 anos passou a noite na Colônia Penal
de Charqueadas (55 km de Porto Alegre, Rio Grande do Sul)
junto com dois presos, com a conivência da administração
do presídio.
Reconhecemos que os dois fatos noticiados são de
diferentes ordens. No entanto, ambos revelam o grau de vulnerabilidade
de jovens mulheres quando as políticas públicas
não as alcançam. Justamente por serem jovens
e mulheres, num país de tradições culturais
conservadoras em relação ao sexo feminino,
são transformadas em presas fáceis das redes
paralelas ao Estado, e nestes dois casos,
do próprio Estado.
Da mesma forma que o fato anterior, o da adolescente de
Abaetetuba, ficou muito evidente que o sistema de garantia
de direitos em nosso País está longe do que
se almeja. E que o sistema prisional brasileiro, como parte
do Estado, é um lugar de violação de
direitos, funcionando sem o cumprimento de normas de segurança
para quem está dentro, como é o caso das mulheres
presas, e coloca quem está fora e nele ingressa de
forma irregular, em risco de vida.
O caso de Abaetetuba (PA) está sendo levado às
cortes internacionais pelo grau de violação
dos direitos humanos, da integridade física e moral
da jovem, sendo considerada por muitos uma violação
da própria consciência humana. Demonstrou o
despreparo de agentes de Estado para o cumprimento de suas
funções e o alto poder de desrespeito aos
direitos humanos que é capaz. A condição
de gênero desta adolescente, aliada à sua condição
sócio-econômica, a fez refém de uma
lógica perversa presente nas ações
de policiais, agentes carcerários e da Justiça.
A banalização da violência,
em especial da violência sexual contra mulheres e
jovens, exige que as normativas internacionais e nacionais
sejam implementadas e seguidas em nosso país, em
particular a Declaração Universal dos Direitos
Humanos, a Convenção contra a Tortura e Outros
Tratamentos ou Penas, Cruéis, Desumanos e Degradantes
as Regras Mínimas para o Tratamento de
Prisioneiros, o no caso das mulheres, ainda a Convenção
Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação,
Convenção para Prevenir, Punir e Erradicar
a Violência contra a Mulher; e das jovens, o Estatuto
da Criança e do Adolescente, e a Convenção
sobre os Direitos da Criança).
Reconhecendo o esforço que o Estado
brasileiro vem fazendo em direção à
democratização, a Rede Feminista de Saúde
ainda assim, frente a tais fatos, é instada a expor
o grau de indignação e exige a total, completa
e transparente apuração destes fatos, a oferta
de meios de defesa, acesso à atenção
para tratamento quanto à saúde física
e psíquica, e em particular, de sua saúde
sexual e reprodutiva. E, ainda, a mobilização
de recursos para que as mesmas possam ser fortalecidas no
seu convívio social através de um conjunto
de políticas públicas intersetoriais que cabe
ao Estado fornecer.
Tanto para o caso de Abaetetuba, quanto este de Charqueadas,
a Rede Feminista de Saúde está atenta às
providências e aos desdobramentos.
Cordialmente,
Telia Negrão,
Secretária Executiva da Rede Nacional Feminista de
Saúde
Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos.
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